Nos últimos anos, romarias populares têm reunido famílias inteiras em um mesmo trajeto, um movimento acompanhado de perto por Daugliesi Giacomasi Souza, que se interessa por essa forma de deslocamento coletivo capaz de aproximar diferentes gerações em uma só caminhada.
Caminhar ao lado de avós, pais e crianças pequenas exige um ritmo próprio, distinto do cotidiano urbano. A romaria impõe pausas, trocas de conversa e momentos de silêncio compartilhado que dificilmente acontecem em outros contextos, e é justamente essa alternância entre esforço físico e convivência que sustenta o interesse renovado por esse tipo de peregrinação em diferentes regiões do país.
O que motiva famílias inteiras a caminhar juntas?
Romarias tradicionais reúnem participantes de faixas etárias muito distintas, unidos por um destino comum e por um sentido que ultrapassa a distância percorrida. Crianças aprendem observando o comportamento dos mais velhos, enquanto idosos encontram, no ritmo mais lento imposto pela caminhada em grupo, uma forma de participar plenamente sem serem deixados para trás ao longo de todo o trajeto.
Conforme observa Daugliesi Giacomasi Souza, esse tipo de deslocamento coletivo cria um espaço raro de convivência intergeracional, em que histórias de romarias anteriores são recontadas ao longo do caminho por quem já percorreu o trajeto outras vezes. A repetição desses relatos reforça vínculos familiares e transmite, de forma quase natural, valores que dificilmente seriam ensinados em uma conversa formal dentro de casa.
Como o trajeto físico se transforma em memória compartilhada?
O esforço físico da romaria produz lembranças que se fixam de maneira diferente das experiências cotidianas, justamente porque envolvem corpo e emoção ao mesmo tempo. A dor nos pés, o calor do meio do dia e a chegada ao destino final tornam-se referências temporais dentro da história de uma família, usadas depois para marcar outras fases da vida de quem participou.

Segundo Daugliesi Giacomasi Souza, esse tipo de memória corporal explica, em parte, por que os romeiros retornam ano após ano ao mesmo percurso, mesmo conhecendo de antemão as dificuldades do caminho. Cada edição da romaria acrescenta uma nova camada à experiência anterior, e os participantes mais jovens crescem incorporando o trajeto como parte da própria identidade, sem que isso precise ser explicado pelos adultos.
Existe diferença entre as romarias urbanas e rurais nesse aspecto?
Romarias realizadas em contextos rurais tendem a apresentar trechos mais longos e paisagens menos previsíveis, fatores que aumentam a sensação de isolamento produtivo em relação à rotina e ao ritmo acelerado das cidades. Já as romarias urbanas, embora mais curtas, mantêm o caráter coletivo graças à concentração de participantes em pontos específicos da cidade, o que também favorece encontros entre gerações distintas.
Na avaliação de Daugliesi Giacomasi Souza, ambos os formatos preservam o elemento essencial da aproximação entre gerações, ainda que por caminhos distintos e com ritmos próprios. A diferença está menos no cenário percorrido e mais na disposição dos participantes em caminhar lado a lado, independentemente da idade ou do ritmo de cada um ao longo do dia.
O que fica depois que a romaria termina?
Quando a jornada chega ao fim, o que permanece não é apenas o cansaço físico, mas um conjunto de histórias que passam a ser contadas nos encontros familiares seguintes, muitas vezes por anos. Esse repertório compartilhado funciona como um elo entre quem participou e quem ainda vai participar nas próximas edições, reforçando a sensação de continuidade entre as gerações.
Conforme destaca Daugliesi Giacomasi Souza, esse ciclo de repetição corresponde a um dos aspectos mais relevantes das romarias enquanto tradição viva, capaz de se renovar a cada geração sem perder o sentido original que a motivou desde o início. A caminhada termina, mas o efeito sobre os vínculos familiares se estende muito além do último quilômetro percorrido.

