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O que mudou na abordagem de riscos em projetos de dutos após os grandes acidentes ambientais da última década?

Paulo Roberto Gomes Fernandes

Paulo Roberto Gomes Fernandes, fundador e presidente da Liderroll, acompanhou de perto as transformações que os grandes acidentes ambientais envolvendo dutos impuseram à abordagem de riscos na indústria de petróleo e gás. O derramamento no Golfo do México em 2010, os acidentes em oleodutos terrestres nos Estados Unidos e os incidentes em terminais e refinarias ao redor do mundo produziram um conjunto de respostas regulatórias, normativas e culturais que redesenharam o padrão mínimo aceitável para projetos e operações no setor. A indústria que existia antes dessas ocorrências e a que opera hoje são, em muitos aspectos, organizações distintas.

A transformação do quadro regulatório após grandes acidentes

Acidentes de grande impacto ambiental em dutos produzem respostas regulatórias que alteram permanentemente os requisitos mínimos do setor. Após eventos de repercussão internacional, agências reguladoras nos Estados Unidos, no Canadá e na Europa endureceram as exigências de integridade, monitoramento e resposta a emergências para operadores de redes dutoviárias. Contudo, o impacto dessas mudanças vai além do cumprimento de novos dispositivos normativos: elas alteraram as expectativas da sociedade sobre o nível de risco aceitável nessa categoria de infraestrutura.

Paulo Roberto Gomes Fernandes nota que o endurecimento regulatório criou, paradoxalmente, espaço para tecnologias inovadoras de menor impacto ambiental. Métodos construtivos que reduzem a perturbação do solo, soluções que evitam a supressão de vegetação e sistemas de monitoramento contínuo passaram a ser valorizados não apenas por suas características técnicas, mas por sua capacidade de responder às novas exigências regulatórias e às expectativas das comunidades próximas às instalações.

Gestão de riscos baseada em evidências e não em experiência acumulada

Um dos impactos mais significativos dos grandes acidentes sobre a cultura técnica do setor foi a migração de uma abordagem baseada predominantemente na experiência acumulada para uma gestão de riscos fundamentada em evidências técnicas documentadas. A análise quantitativa de riscos, os modelos de probabilidade de falha e os sistemas de registro e rastreabilidade de condições operacionais tornaram-se componentes essenciais dos programas de integridade das principais operadoras.

Paulo Roberto Gomes Fernandes
Paulo Roberto Gomes Fernandes

Sendo assim, empresas que não dispõem de sistemas estruturados de gestão de integridade enfrentam dificuldades crescentes para operar em jurisdições com regulação mais exigente. Paulo Roberto Gomes Fernandes demonstra que a Liderroll, ao desenvolver soluções que incorporam princípios de rastreabilidade e monitoramento desde a fase de construção, posicionou-se de forma alinhada com a direção que o setor passou a seguir após os grandes acidentes da última década.

O papel das novas tecnologias na redução de riscos operacionais

O interesse crescente em tecnologias que reduzem o risco de acidentes ambientais impulsionou o desenvolvimento de soluções de monitoramento, inspeção e resposta a emergências sem precedentes em termos de precisão e velocidade. Drones para inspeção de faixas de dutos, sensores de detecção de vazamento com tempo de resposta em segundos e sistemas automatizados de bloqueio integrados a centros de controle remotos são algumas das inovações que ganharam escala após os acidentes de maior repercussão.

Por outro lado, Paulo Roberto Gomes Fernandes esclarece que a tecnologia por si não resolve problemas de gestão e cultura organizacional. Empresas com sistemas técnicos avançados, mas com processos de tomada de decisão lentos ou hierarquias que desincentivam o reporte de anomalias, tendem a apresentar desempenho de segurança inferior ao que seu portfólio tecnológico sugeriria. A combinação entre ferramentas técnicas de qualidade e cultura organizacional orientada à segurança é o que produz resultados consistentes.

Transparência pública e gestão de licença social em operações dutoviárias

A licença social para operar, conceito que ganhou força após grandes acidentes ambientais, impõe às operadoras de dutos uma responsabilidade de comunicação com comunidades, governos locais e organizações da sociedade civil que vai muito além do cumprimento das obrigações formais de licenciamento. 

Paulo Roberto Gomes Fernandes pondera que empresas que entendem essa dimensão do risco e investem em relações consistentes com as partes interessadas antes que crises se instalem constroem uma base de confiança que se traduz em menor resistência a novos projetos e maior agilidade na obtenção de aprovações regulatórias.

Autor: Diego Rodríguez Velázquez