Parceria entre a Atech, subsidiária da Embraer, e a USP desenvolve sistema que promete tornar o tráfego aéreo brasileiro mais eficiente
Um avião que hoje precisa sobrevoar minutos a mais na área de um aeroporto brasileiro à espera de autorização para pousar poderá, em breve, chegar ao destino de forma mais rápida. Essa é a promessa de um projeto conduzido pela Atech, empresa de tecnologia do grupo Embraer especializada em sistemas de gerenciamento de tráfego aéreo, em parceria com o Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação da Universidade de São Paulo. A dúvida que motiva o projeto é simples de entender e ao mesmo tempo complexa de resolver: como prever com mais precisão o comportamento de centenas de aeronaves em movimento simultâneo, considerando variáveis que mudam a cada minuto, como vento, temperatura e chuva. A resposta passa pela aplicação de inteligência artificial a um sistema que já opera no Brasil há décadas. A seguir, entenda como funciona essa tecnologia, quem está por trás do desenvolvimento e quando ela deve chegar à operação real.
O projeto que quer prever o futuro do tráfego aéreo
O objetivo central da iniciativa é desenvolver um sistema de inteligência artificial capaz de prever trajetórias em quatro dimensões das aeronaves, combinando latitude, longitude, altitude e tempo de voo. A tecnologia vai além dos modelos atualmente utilizados na gestão do tráfego aéreo, que se baseiam principalmente em cálculos cinemáticos estáticos, ao incorporar a capacidade da inteligência artificial de identificar padrões complexos em grandes volumes de dados históricos de voo. Segundo o coordenador do projeto, professor André de Carvalho, a equipe reúne especialistas em inteligência artificial e aeronáutica para analisar o problema sob várias perspectivas, com pesquisadores do Instituto Tecnológico de Aeronáutica e da Universidade Estadual Paulista somando-se ao time do ICMC.
Os modelos de inteligência artificial estão sendo treinados com grandes volumes de dados históricos de voos e informações meteorológicas. Os algoritmos incorporam variáveis como direção do vento, temperatura, precipitação e características operacionais dos voos para melhorar a capacidade preditiva diante de condições que mudam constantemente, algo que modelos matemáticos tradicionais têm dificuldade de capturar com a mesma precisão. Meses de alta demanda, como dezembro, tendem a apresentar padrões distintos de ocupação do espaço aéreo, e é justamente esse tipo de variação que a inteligência artificial busca aprender a partir dos dados acumulados ao longo dos anos. O projeto conta com apoio da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial e já se encontra na terceira de quatro etapas planejadas, com resultados que, segundo os pesquisadores envolvidos, já superam o desempenho dos modelos utilizados como referência atualmente.
Da pesquisa acadêmica à aplicação prática nos aeroportos
A tecnologia está sendo pensada com dupla vocação, permitindo uso tanto na aviação comercial quanto na militar, além de compatibilidade com hospedagem em nuvem, o que deve ampliar sua utilização para diferentes sistemas e clientes no futuro. A Atech é responsável há mais de 30 anos pelo sistema que gerencia o tráfego aéreo brasileiro, conhecido como Sigma, usado pelo Departamento de Controle do Espaço Aéreo, órgão da Força Aérea Brasileira, e por alguns países da América Latina, África e Ásia. A empresa já exportou sua tecnologia para nações como Índia, Mauritânia e África do Sul, e projeta ampliar essa presença internacional à medida que a nova solução de inteligência artificial avance.
Segundo o CEO da Atech, Rodrigo Persico, o resultado esperado é um ecossistema de tráfego aéreo ainda mais seguro, eficiente e previsível para todos os envolvidos, das companhias aéreas aos passageiros. Entre os benefícios concretos citados pela empresa estão a redução do tempo em que aeronaves permanecem em espera no ar, o aumento da previsibilidade para passageiros e aeroportos, e a diminuição do consumo de combustível por meio da otimização de rotas, com impacto direto nas emissões de gases poluentes. O projeto tem duração estimada de 18 meses, e a expectativa, segundo informações da Agência Xinhua, é que o sistema esteja pronto até setembro deste ano, momento em que a Atech deverá dispor do código necessário para integrar a solução aos seus sistemas de gerenciamento de tráfego aéreo. O grupo Embraer investiu R$ 58,4 milhões em pesquisa apenas no primeiro trimestre de 2026, valor superior aos R$ 47,7 milhões aplicados no mesmo período do ano anterior, reforçando o ritmo crescente de investimento em inovação tecnológica da companhia.
Se os resultados das próximas etapas confirmarem o desempenho já observado em testes, o Brasil pode se tornar referência internacional em gestão inteligente de tráfego aéreo, com tecnologia desenvolvida internamente e already validada por décadas de operação prática. Para o passageiro comum, o efeito esperado é sentido de forma indireta, mas concreta: menos tempo de espera em voos, menos atrasos causados por congestionamento no espaço aéreo e uma operação mais previsível de ponta a ponta.
Fontes consultadas: Monitor Mercantil, CNPL

