Boa parte das lesões mamárias tratadas cirurgicamente hoje nunca chega a ser percebida pela própria paciente, sendo encontrada exclusivamente através de exames de imagem, como mamografia, ultrassonografia ou ressonância magnética. O médico radiologista, Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues explica que esse tipo de achado impõe um desafio prático ao cirurgião: como localizar, com precisão, algo que não pode ser sentido nem visto a olho nu durante a própria operação. A resposta está em um procedimento realizado antes da cirurgia, conhecido como marcação pré-cirúrgica ou agulhamento mamário.
O procedimento consiste em inserir, sob orientação de imagem em tempo real, um marcador dentro ou muito próximo da lesão identificada, permitindo que o cirurgião localize exatamente aquele ponto durante a operação, mesmo sem qualquer referência palpável para se guiar. Entender como esse procedimento funciona e as diferentes técnicas disponíveis atualmente ajuda a esclarecer uma etapa da jornada cirúrgica que costuma gerar dúvida entre pacientes que recebem essa indicação pouco antes de uma cirurgia já agendada.
Por que uma lesão encontrada em exame de imagem às vezes não pode ser localizada de outra forma?
Muitas lesões mamárias relevantes, como microcalcificações suspeitas ou pequenos nódulos em fase inicial, são pequenas demais ou profundas demais para serem percebidas pela palpação, mesmo por um cirurgião experiente durante a própria operação. Sem qualquer forma de marcação prévia, o risco de remover tecido da região errada, ou de precisar ampliar desnecessariamente a extensão da cirurgia para garantir que a área correta seja incluída, aumenta consideravelmente.
Dr. Vinicius Rodrigues elucida que esse tipo de marcação representa um elo essencial entre o diagnóstico por imagem e o tratamento cirúrgico, já que, sem ela, toda a precisão obtida durante a investigação diagnóstica perderia parte de seu valor no momento decisivo da remoção do tecido. Para ele, esse procedimento raramente recebe o destaque que merece, apesar de ser determinante para o sucesso da cirurgia conservadora da mama.
Como funciona, na prática, a técnica mais tradicional de marcação com fio metálico?
Guiado por ultrassom ou por mamografia, dependendo de qual exame melhor visualiza a lesão específica, o radiologista insere uma agulha fina até o local exato do achado e posiciona ali um fio metálico com um pequeno gancho na ponta, que ancora no tecido e serve de guia visual e tátil para o cirurgião durante a operação. O procedimento é realizado com anestesia local, dura em média quinze minutos e costuma ser agendado no mesmo dia da cirurgia ou até 24 horas antes dela.

Na avaliação do médico radiologista, Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, a principal limitação prática dessa técnica tradicional é logística: como o fio precisa ser inserido pouco antes da cirurgia, a paciente geralmente passa por dois procedimentos agendados quase simultaneamente, o que exige coordenação cuidadosa entre o serviço de radiologia e o centro cirúrgico para evitar deslocamento do próprio fio antes da operação começar.
Que alternativas mais recentes já substituem, em parte, o fio metálico tradicional?
Duas técnicas mais modernas vêm ganhando espaço: a localização radioguiada, conhecida pela sigla ROLL, que utiliza um pequeno radiotraçador injetado diretamente na lesão para orientar o cirurgião com o auxílio de uma sonda detectora de radiação durante a cirurgia, e a marcação com clipe magnético, que pode ser inserida com vários dias ou até semanas de antecedência, sem o risco de deslocamento que o fio metálico apresenta, já que o cirurgião utiliza uma sonda magnética específica para localizar o clipe no momento da operação.
Para o Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, a vantagem prática dessas técnicas mais recentes, especialmente a marcação magnética, está justamente na flexibilidade de agendamento que oferecem, permitindo separar completamente a data da marcação da data da cirurgia, o que facilita a logística tanto para o serviço de saúde quanto para a própria paciente, reduzindo o número de deslocamentos e procedimentos concentrados em um único dia.
Existe algum risco relevante associado a esses procedimentos de marcação?
Os riscos são geralmente pequenos e bem documentados: possibilidade de leve desconforto local, raro deslocamento do fio metálico antes da cirurgia, exposição à radiação nos casos guiados por mamografia ou pela técnica ROLL, e uma pequena chance de reação alérgica ao produto usado na desinfecção da pele. Pacientes com distúrbios de coagulação relevantes exigem avaliação adicional antes do procedimento, mas, de forma geral, a marcação pré-cirúrgica é considerada segura e bem tolerada pela grande maioria das pacientes.
Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues percebe que a escolha entre as diferentes técnicas disponíveis depende de fatores como características específicas da lesão, disponibilidade tecnológica do serviço e logística de agendamento entre radiologia e centro cirúrgico, mas que o objetivo final é sempre o mesmo: garantir que o cirurgião remova exatamente a área identificada como suspeita, preservando ao máximo o tecido mamário saudável ao redor.
A marcação pré-cirúrgica ilustra bem como o diagnóstico por imagem e o tratamento cirúrgico do câncer de mama funcionam como elos de uma mesma corrente, e não como etapas isoladas. Cada avanço técnico nessa marcação, do fio metálico tradicional às opções mais recentes de localização magnética ou radioguiada representam ganho real de precisão e conveniência para quem passa por essa etapa da jornada de tratamento.

